'Transparent', a série multipremiada que não é exibida no Brasil

Data: 11.Mar.2016
Fonte: O Globo


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RIO — Indicada a quatro Globos de Ouro desde a sua estreia, em 2014, “Transparent” venceu dois: melhor série de comédia e melhor ator, para Jeffrey Tambor, em 2015. No Emmy do mesmo ano, foram cinco prêmios, de um total de 11 indicações, incluindo direção (para a criadora, Jill Soloway) e ator. 
 
Produzida pela Amazon, a trama conta a história de Morton, um pai de família que se revela transexual e vira Maura. Mas, mesmo com todo o reconhecimento que recebeu, a história, que chega à terceira temporada neste ano, ainda não é exibida (legalmente) no Brasil. Braço de streaming da gigante americana do varejo, o
Amazon Instant Video, afinal, não está disponível no país. É que a assinatura é atrelada a um serviço de entregas expresso que não existe no Brasil, onde a Amazon só comercializa livros. 
 
Outras produções do estúdio, porém — “Mozart in the jungle”, “Betas” e “Alpha house” entre elas —, são exibidas por aqui, a primeira no Fox Life, sob o título “Sinfonia insana”, e as outras duas no Clarovideo. Já “Transparent”, segundo fontes do mercado, teria sido oferecida por um preço muito alto, daí não ter achado canais interessados em exibi-la em território nacional.
 
— Se uma pessoa não tem acesso a uma série e quer vê-la, vai piratear — diz Rhys Ernst, produtor e consultor de “Transparent” e um dos convidados do sexto RioContentMarket, evento que discute o setor audiovisual a partir de amanhã na cidade. — Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, apenas que vai acontecer. E claro que o impacto é diferente num mercado onde ela está disponível e onde ela não está. É difícil culpar alguém por baixar uma série nesses casos. É bem mais complicado do que quando alguém simplesmente não quer pagar por um conteúdo — contemporiza ele, que falará ao público carioca na quinta-feira.
 
Ernst, americano, 33 anos, é, assim como Morton/Maura Pfefferman, transgênero. Nascido mulher, fez sua transição de sexo aos 25. Além de “Transparent”, recentemente atuou como consultor para o longa “A garota dinamarquesa”, orientando o diretor Tom Hooper e o ator Eddie Redmayne, que concorreu a um Oscar pelo papel de Einar Wegener/Lili Elbe, uma das primeiras pessoas a se submeter a uma cirurgia para redesignação de sexo.
 
— Durante toda a minha vida eu me senti como um homem — conta Ernst, que documentou sua transição ao lado da ex-namorada, Zackary, também transexual, num trabalho fotográfico exposto na Bienal do Whitney Museum, em Nova York, em 2014. 
 
— Virei cineasta ainda jovem e fiz a transição ao mesmo tempo. Foi quando eu percebi que queria estreitar a conexão entre essas duas coisas e fazer dos meus filmes uma ferramenta para a mudança social. Ainda assim, me vejo mais como um artista do que como um ativista, porque acho que a história ainda é mais importante do que a mensagem, ela precisa ser atraente e universal. 
 
Segundo Rhys, afinal, a cultura pop é uma das ferramentas mais poderosas para que as pessoas possam se conectar com LGBTs, especialmente transexuais. E, para ele, “Transparent” vem ajudando a pavimentar esse caminho.
 
— Transgêneros vêm sendo mal representados na mídia, como monstros, vítimas, trabalhadores do sexo, serial killers, ou como se fossem piada. São sempre representações extremas, que não necessariamente são acuradas. É um histórico muito negativo. A mudança acabou de começar, e lentamente. É importante estimular o debate porque ainda há muita violência, as taxas de desemprego entre trans são imensas. Tivemos muita sorte por fazer parte do começo da conversa, estamos ajudando a mudar a perspectiva. É muito emocionante, mas também é uma grande responsabilidade. 
 
Ernst conta que conheceu Jill Soloway, criadora de “Transparent”, durante o Festival de Sundance, em 2012, enquanto ele apresentava “The thing”, um curta-metragem sobre uma mulher, um homem transgênero e um gato, em uma road trip pelos EUA. 
 
Na época, Jill, que havia roteirizado séries como “United States of Tara” (2009) e “A sete palmos” (2001), estava lidando com a revelação de que o próprio pai era transexual (ou que “escapou para a liberdade”, como ela mesma disse durante seu discurso de agradecimento na estreia da série).
 
— Foi aí que nos conectamos e a relação começou — conta Ernst, que faz parte de “Transparent” desde os estágios iniciais. — Minhas impressões digitais estão em toda parte. Comecei como consultor, mas acabo produzindo bastante. Escalo elenco, contrato equipe, sou um tipo de produtor criativo, com a particularidade de dar orientações em termos de representação transexual. Em “A garota dinamarquesa” eu atuei apenas como consultor, cheguei no meio do projeto, pude colocar menos as minhas mãos sobre ele.
 
ESCALAÇÃO DE ATOR CISGÊNERO
Ernst afirma que a sempre polêmica escalação de atores cisgêneros (ou seja, que se identificam com o gênero sob o qual nasceram) para interpretar transexuais não chegou a abalar “Transparent”:
— Concordo que quase todos os papéis de transgêneros podem e devem ser interpretados por transgêneros, mas há exceções. No caso de “Transparent”, a produção seguiu todos os passos e não conseguiu encontrar uma atriz transexual de 70 anos com experiência suficiente para liderar uma série de comédia, bem como capaz de interpretar os dois lados da linha de gênero. É um papel muito difícil de escalar. 
 
Um dos encontros com Tambor, ele diz, aconteceu de um jeito especial.
— Foi no dia em que ele experimentou pela primeira vez figurino, peruca e maquiagem — lembra Ernst. — Durante o processo, estávamos Jill, uma colega transexual e eu conversando sobre nossas histórias. Duas ou três horas depois, Maura nascia na nossa frente. Foi catártico. Resolvemos ir a um bar transexual com Jeffrey vestido como a personagem e foi uma sensação. Maura dançou, muita gente parou para agradecer por estar fazendo a série. Homenageamos esse momento na segunda temporada.
 
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