Fanáticos por games, tecnologia e séries sci-fi vão se reunir no primeiro festival geek da cidade

Data: 10.Abr.2017
Fonte: O Globo Online


Clique aqui para ler a matéria direto da fonte.
 

Evento será realizado de 21 a 23 de abril, no Riocentro
 

Tiago Chamuinho recebeu educação religiosa na Igreja Católica e frequentava a missa de domingo com frequência. Mas em momento algum contaram para o designer de produtos sobre os humilhados que um dia seriam exaltados. Talvez, se tivesse conhecimento dessa passagem bíblica (parte do Evangelho de São Lucas) desde pequeno, soubesse que um dia chegaria a vez dos nerds. Eles hoje estão com tudo, e ganharam até um festival, o Geek & Game Rio Festival, que será realizado no Riocentro entre os dia 21 e 23 deste mês, esperando reunir 70 mil pessoas com cara de CDF de todas as idades. Sem falar no Rock in Rio, que pela primeira vez contará com o espaço Game XP, concebido em parceria com a Comic Con Experience, que oferecerá arena de eSports, auditórios para talk shows com produtores, criadores e outros profissionais do segmento, disputas entre celebridades e estandes de grandes marcas para venda e demonstração de lançamentos.
 

Agora, ser chamado de nerd não é mais vergonhoso; é praticamente um troféu. Tem até gente que força a barra para parecer que é. Na minha época, sofri bullying. O cara que ficava em casa, jogando videogame ou vendo filme de ficção científica em vez de jogar bola com os amigos, era muito zoado atesta Chamuinho.
 

Para a psicóloga e psicodramatista Elaine Holanda Rosalem, essa ressignificação do conceito nerd ocorreu graças à evolução da tecnologia. Mas nem tudo são flores:
 

Nos dias atuais, com a busca do conhecimento intensificada, as famílias procuram, cada vez mais cedo, potencializar as habilidades intelectuais dos seus filhos. Por um lado, isso é favorável, oorque aumenta a autoestima e a preparação para o ensino superior e o mercado de trabalho. Mas pode ter um aspecto desfavorável, caso isso se torne tão evidenciado que gere um clima de competitividade entre eles e seus familiares. Antigamente, a palavra nerd era vista como sinônimo de intelectual, estudioso. Hoje somou-se esse conhecimento à área tecnológica, ligada ao que é moderno, o que a fez ganhar mais valor e respeito e gerou um novo termo: geek.
 

Apesar das evidências, o designer levou um tempo para se definir como um nerd de verdade. Até porque ele não aprovou o primeiro filme da franquia Star wars, o que é considerado pecado mortal para quem é da turma.
 

Quando vi A ameaça fantasma, que foi o quarto filme lançado, mas, na verdade, é o episódio número um da série, achei uma porcaria, muito infantilizado. Depois que vi os outros é que percebi que esse tinha uma linguagem completamente diferente do todo e virei fã. Mas o grande salto para me tornar um nerd foi conhecer o podcast Nercast e o canal do YouTube Jovem Nerd. Foi quando encontrei mais referências e tive um entendimento melhor do que é o universo geek. Uma coisa tão natural que só percebi que eu fazia parte disso tudo depois de brincar com algumas pessoas que não entendiam nada do que eu estava falando. Aí, caiu a ficha lembra.
 

Chamuinho garante que, apesar das brincadeiras acerca do seu jeito, nunca teve problemas de relacionamento. Além de namorar uma advogada que nas horas vagas adora ver filmes e séries do universo geek, ele trabalha com venda de produtos do gênero. Ou seja, sorte no amor e no jogo.
 

É claro que ter um relacionamento com uma pessoa que curte as mesmas coisas que você funciona melhor, mas foi uma coincidência. E, sobre o meu trabalho, tudo também se encaminhou de forma muito natural. Conforme fui participando de eventos, comecei a sentir falta de certos produtos. Quando tem um boom de algum filme ou personagem, por exemplo, até produzem alguns itens referentes a eles, mas não conseguem sair do mais do mesmo. E o público nerd gosta de exclusividade. Foi por isso que pensei em criar coisas para ganhar uma graninha, mas o negócio foi ganhando corpo, e o que começou como uma brincadeira virou minha fonte de renda conta ele, que terá um estande no Geek & Game Rio Festival, com mais de 150 produtos, incluindo bonecos, chaveiros, luminárias e anéis de prata.
 

Assim como o designer, todos os envolvidos na feira tem um pé no mundo geek, segundo Tatiana Zaccaro, diretora da Fagga, famosa por organizar grandes eventos, como a Bienal do Livro. No caso desta empreitada, a parceira é a empresa de esportes eletrônicos Supernova.
 

Os nossos parceiros são nerds convictos. Mas, se você parar e olhar ao seu redor, vai descobrir que todo mundo tem algo geek. Por exemplo: assistir a séries como Game of thrones, Luke cage e Westworld e gostar de super-heróis e gibis é ser geek. E as pessoas estão cada vez mais assumindo esse lado, porque, há um tempo, era vergonhoso, mas agora é cool, e as empresas estão investindo nessa onda. Basta reparar nas ruas a quantidade de gente com alguma peça de roupa ou um acessório que tem um super-herói estampado.
 

Ou seja, para ser nerd, não precisa gostar de tudo o que caracteriza esse universo. Existem diferentes tipos deles, nas ruas, nos cinemas, nas bancas de jornais... E, entre essa galera, não existe aquela coisa do meu jardim é mais geek que o seu. Todos se aceitam muito bem, como mostra o casal de atores Aimée Serafim e Leonardo Bauberger. Ela adora Harry Potter; ela prefere o desenho Hora de aventura.
 

Entrei nessa porque dividia quarto com dois irmãos que eram viciados em quadrinhos e acabava lendo as revistas. Mas não cheguei a ficar viciada naquilo na época lembra Aimée. Até que, no meu aniversário de 12 anos, meu pai me deu o primeiro livro do Harry Potter, porque tinha lido que era sensação em Londres. Eu simplesmente amei. Não só eu, mas a minha família inteira. Minha mãe tem todos os livros em português e inglês. Depois da sessão do último filme da série, eu e minha avó saímos do cinema aos prantos. Não conseguíamos aceitar que, no ano seguinte, não ia ter outro. Além disso, percebi que minha infância estava acabando e sofri ainda mais.
 

Com Bauberger, tudo começou com o fascínio por toda sorte de filmes e séries. E, de gênero em gênero, ele se encantou pelo universo geek:
 

Assisto a tudo o que estreia, mas Hora de aventura, realmente, é a minha favorita. Dos 56 personagens do desenho, já tenho 44. Outro dia, rodei várias lojas do BarraShopping atrás deles. Até a família da Aimée está me ajudando a completar essa coleção.
 

QUANDO DOIS NERDS SE AMAM
 

Aimée e Leonardo entraram no mesmo semestre na faculdade de Artes Cênicas e sempre estudaram na mesma sala. E, como quase em toda grande história de amor da dramaturgia, no começo, não se bicavam. Só no quarto período resolveram se cumprimentar. Depois, vieram algumas conversas curtas de corredor, umas divagações sobre a vida até que... Bingo! Eles marcaram de ir ao cinema.
 

Eu sugeri vermos Homem de Ferro, que é um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos, e ele achou que eu estava querendo agradar. Mas, quando descobriu que eu realmente gostava, contou que ficou aliviado lembra Aimée, que, após um ano de namoro, foi morar com Bauberg. Estamos juntos há quatro, e, há um tempinho, temos um trato de ver séries juntos. Ai dele se vir alguma coisa sem mim! Vai abalar a relação. Não sou de ter ciúme, mas isso é algo que não aceito; é considerado traição grave.
 

Casal que joga RPG unido também permanece unido. Mas há controvérsias, como prova a história da estudante de Letras Luciana Fortuna:
 

Comecei nessa vida com meu primeiro marido, quando ele me apresentou a um jogo. E me apaixonei pela coisa.
 

A brincadeira, no entanto, não foi mais forte que a crise no casamento. Mas foi graças a ela que a fila andou.
 

O meu atual marido me adicionou no Facebook, porque achou que já tinha falado comigo em algum evento de RPG, e eu aceitei a solicitação de amizade, porque pensei que o conhecia, já que tínhamos muitos amigos em comum. Mas tudo não passou de um grato engano. Ele me apresentou a vários outros jogos. Aí, não tem como não ser amor eterno brinca Luciana, que está casada com o professor de música Marcelo Telles há cinco anos e se considera uma nerd analógica. Sou daquelas que gostam de jogo que promovem encontros. Outro dia recebemos uns amigos que também são fanáticos para almoçar e ficamos juntos até a manhã do dia seguinte. Preciso dizer por quê?
 

Não, obrigado. Melhor pular para o casal Anamaria e Luiz Flavio Januzzi. Sem esquecer do filho deles, Lucas, de 9 anos:
 

Eu não era tão inserida nesse universo até conhecer o Luiz. Ele jogou RPG quando era pequeno, gostava de Guerra nas estrelas, comprava bonecos dos quadrinhos. Até hoje, eu o acompanho nos eventos, mas não sou uma fanática explica Anamaria, que é designer gráfico e, realmente, não deve ser uma nerd de carteirinha, já que usa Guerra nas estrelas em vez de Star wars, como todo geek de carteirinha. Mas eu comecei a desenhar graças aos quadrinhos que lia quando criança. Ah, e também gostava de brincar de videogame com meus amigos.
 

Mas o que a faz ser uma frequentadora assídua de eventos do segumento é o filho. Ela e o marido levam o menino a todos.
 

Teve um que caiu no dia do aniversário da minha mãe, que fez a maior comemoração. Para não desapontar a avó, nós o levamos cedo no evento e, depois, partimos para a festa lembra.
 

Desde muito cedo Lucas tenta transitar pelo mundo geek pelas próprias pernas.
 

Aos 2 anos, ele dizia que queria trabalhar no YouTube. Há pouco mais de um ano, atendemos ao desejo dele e criamos o Fun Toys Brinquedos conta Januzzi, que é programador e responsável pela edição do canal do filho, atualmente com 26 mil inscritos. Fizemos algo bem educativo, mas sem ser chato, e ensinamos o passo a passo de jogos de tabuleiro e de videogames, e também a fazer objetos com Lego e flextangles, que são brinquedos de papel. Só não mostramos o rosto dele, porque é muito novinho. Preferimos preservá-lo.
 

PAI HERÓI INFLUENCIA FILHOS
 

Desde criança, o blogueiro Sergio Henrique Falci Ellis, o Nick, tinha fissura por Star wars, Star trek e animes. Quando conheceu o RPG, ficou fascinado pelo jogo. E seus filhos, Maria, de 12, e Theo, de 9, estão indo pelo mesmo caminho.
 

Acho que já nasci nerd. Na década de 1980, quando não era cool, eu fazia tudo o que os meninos se orgulham de fazer hoje em dia, mas sendo zoado de todas as maneiras. Em 2005, depois de anos trabalhando como designer gráfico, criei três blogs: o Digital Drops, sobre gadgets (peças) de produtos eletrônicos; o Meio Bit, em que falo de tecnologia, entretenimento, ciência e um pouco de tudo; e o Blog de Brinquedo, em que mostro brinquedos de todas as idades. Cada um tem seu respectivo canal no YouTube conta.
 

O negócio deu tão certo que, há alguns anos, ele vive apenas da renda gerada com anúncios e visualizações em ambas as plataformas. O que fez crescer os olhos de Maria e Theo.
 

O meu pai se dá muito bem com isso. Às vezes, ganha um celular que alguma marca está lançando para testar; já recebeu uma TV Oled para usar como cenário dos vídeos que faz; e é convidado para todas as feiras geeks do mundo inteiro. Já viajou para Taiwan, Las Vegas, Nova York, São Francisco e vários lugares da Europa, com tudo pago. Ele disse que vai me levar junto quando eu ficar maior. E, quando crescer, também vou querer trabalhar assim, como ele diz Theo, que já produz e edita o próprio canal no YouTube, Theo Ellis. Minha irmã também tem um canal (Oi Mundo), mas não gosta de divulgar, porque tem vergonha da voz dela.
 

BRINCADEIRA DE R$ 4 MILHÕES
 

A primeira edição do Geek & Game Rio Festival não é uma aposta sem fundamento. Foi o crescimento recente do segmento nerd que despertou a atenção dos gestores da Fagga.
 

Realizamos a Bienal do Livro desde que começou, há quase 40 anos. E temos acompanhado o crescimento do universo geek dentro dela, por meio da cultura da convergência, em que um livro vira game ou filme, e vice-versa. Fora o movimento fantasy (RPG e outros jogos) e os HQs, que também ganharam muito destaque na feira. Como no Rio não existia qualquer evento do gênero, criamos um conta a diretora da Fagga, Tatiana Zaccaro.
 

A feira, que contará com 58 expositores e sete ambientes, custou R$ 4 milhões. Neste primeiro ano, a organização espera, pelo menos, receber o retorno do que foi aplicado.
 

Como é a nossa estreia e a cidade nunca promoveu um evento parecido, para compararmos, não dá para fazer uma estimativa de resultado financeiro. Mas confiamos bastante no poder do público geek diz.
 

O objetivo é atender a todos os gostos, do nerd convicto ao curioso, segundo Tatiana.

 

Teremos o Artway, em que caricaturistas e cartunistas vão fazer trabalhos na hora; o Game Stadium, uma arena de competição de videogames; o Hike Station, um auditório que receberá convidados para palestras; o Little Heroes, voltado para as crianças e com curadoria do grupo que promove o evento Mundinho Geek (a empresa Imagem Cultural); o Cosplay Award, um desfile de cosplay que vai premiar as melhores fantasias; o Meet & Greet, local para autógrafos e fotos com os convidados do evento; e o Board Game Alley, uma área repleta de jogos de tabuleiro. Com isso, atendemos todos os tipos de geek e também quem não é desse universo mas quer descobrir sobre ele afirma Tatiana.
 

O Geek & Game Rio Festival será realizado de 21 a 23 deste mês, das 10h às 21h, no Riocentro. Os ingressos vão de R$ 55 (um dia, no primeiro lote) a R$ 581 (os três dias e algumas atividades incluídas). Mais informações em ggrf.com.br/ingresso.php.

#

Rio de Janeiro
Rua Salvador Allende, 6.555
Barra da Tijuca - CEP: 22870-160
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
Tel: (21) 2441-9100 | Fax: (21) 2441-9398
São Paulo
Rodovia dos Imigrantes, km 1,5         
CEP: 04329-900
Tel: (11) 5067-1760