De nerds a ciberatletas: o crescimento exponencial do e-Sports

Data: 24.Abr.2017
Fonte: O Globo Online


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Neymar e Rafael Salles são jovens, jogadores de grandes times europeus, com títulos na carreira e sucesso graças ao futebol. O craque do Barcelona é idolatrado por seus dribles desconcertantes e arrancadas. A nova contratação do Paris Saint-Germain, da França, faz o mesmo. Só que com as mãos e na frente de um computador. Rafael, ou melhor, Rafifa13 ainda não alcançou o estrelato mundial do conterrâneo, porém nada o impede de chegar lá. O crescimento exponencial dos chamados esportes eletrônicos eleva os "pro players" (jogadores profissionais de games) ao status de atletas.

A organização do eSports está quase no mesmo patamar de modalidades convencionais, inclusive atraindo grandes clubes, como o PSG, que fecham parcerias com organizações de jogos eletrônicos. Para este ano, por exemplo, um estudo da Newzoo, consultora do mercado de games, estima que apenas o eSports movimente US$ 696 milhões (R$ 2,15 bilhões) e audiência de 385 milhões de pessoas, com a maior concentração nos EUA e Ásia. Valores longe do futebol real, por exemplo, que ultrapassa os R$ 600 bilhões, porém, com potencial enorme e em desenvolvimento.
 

De nerds a ciberatletas: o crescimento exponencial do e-Sports 1 2 3 4 de 4 Capitulo 1 'O nerd de hoje é o cara rico de amanhã' Capitulo 2 Boom com a chegada do LoL ao Brasil Capitulo 3 Produção de games no país é incipiente Capitulo 4 Rafifa13: fã de Loco Abreu e FalleN 'O nerd de hoje é o cara rico de amanhã' Boom com a chegada do LoL ao Brasil Produção de games no país é incipiente Rafifa13: fã de Loco Abreu e FalleN 'O nerd de hoje é o cara rico de amanhã'
 

Definitivamente, a última década transformou o que era uma brincadeira de criança em um cenário esportivo. Competições milionárias, janelas de transferências, vendas de direitos de transmissão, centros de treinamento - no caso, as gaming houses , equipes completas por nutricionistas, psicólogos e preparadores físicos. Foi exatamente o que aconteceu com Rafifa13, codinome usado por Rafael no jogo de futebol Fifa. Aos 21 anos, ele equilibra a faculdade de Relações Públicas na Uerj com a profissão de gamer.
 

Meu primeiro contato com o mundo gamer foi com o Super Nintendo, quando devia ter uns 4 ou 5 anos. Mas o momento em que notei que o jogo poderia me levar a lugares mais altos e ser a minha profissão foi no meu primeiro campeonato profissional, em 2011. Naquela época eu não tinha grandes expectativas com o jogo e logo na primeira oportunidade consegui uma quarta colocação naciona, o que me motivou para seguir no cenário conta Rafael, que assinou contrato por dois anos e receberá bonificações durante os campeonatos.
 

Rafifa13 todos os jogadores usam nicknames é um exemplo do mundo nerd que saiu da frente das telas e ganhou os espaços reais. No Brasil, há mais de cem eventos anuais, envolvendo competições ou não. Como o Rio Geek e Game, no Riocentro, que termina neste domingo, e conta com uma arena de competição com um palco de 40 metros quadrados e arquibancadas para 500 pessoas. Ao todo, o festival distribui R$ 200 mil em prêmios nos torneios.
 

É a primeira arena do Brasil desse tamanho e suspensa, como se fosse um ginásio de vôlei, com narração e câmera 360 graus transmitindo os jogos. O mercado de games no Brasil, atualmente, movimenta R$ 1 bilhão, e o eSports está em expansão. Hoje, há transmissão em streaming (tempo real pela internet) com audiência de mais de 100 mil pessoas, ultrapassando esportes tradicionais, como natação, judô. Só falta ser reconhecido legalmente, mas a estrutura é de um esporte tradicional disse Samuel Byron, diretor da empresa de eSports Supernova, e idealizador do Gamer Stadium, lembrando que o país já encheu outras arenas como Maracanãzinho, Allianz Park, Ibirapuera e, em maio, haverá torneio internacional na Arena da Barra.
 

Do gamer a ciberatleta, o esterótipo nerd também mudou. Sai o perfil pálido, desengonçado e de óculos (ainda estão lá, é claro) e entra o jovem que não gasta as horas apenas com jogos, tem outros interesses e é visto como descolado. E as meninas também estão nessa, e já são as maiores consumidoras do mercado de games de todos os tipos, não apenas dos jogos esportivos.
 

Como diz a música dos Seminovos, "O nerd de hoje é o cara rico de amanhã". Não é mais aquele jovem franzino, de óculos. A galera é mais fitness, que produz tendência. Hoje, por exemplo, sair com fone verde na rua é legal conta Samuel, destacando que a visão dos pais também mudou. Eu tenho 29 anos e a minha geração já incentiva os filhos a jogar. Meu pai falava: "Larga do videogame porque isso não dá futuro". Hoje, mudou tudo.
 

Mercado de eSPORTS no Mundo

RECEITA (Engloba propaganda, patrocínios, ingressos, merchandising, direitos de transmissão e premiações)
AUDIÊNCIA (Público casual e público entusiasta) 589 milhões 1,4 bilhão(R$ 4,3 bilhões)
EM US$696 milhões (R$ 2,15 bilhões)385milhões 493 milhões(R$ 1,5 bilhão) 323 milhões 

ALGUNS DOS PRINCIPAIS JOGOS

League of Legends (LoL) O mais popular do mundo, envolve magia e batalhas online.
Counter-Strike Global Ofensive (CS:GO) A versão anterior do game de tiro foi o primeiro esporte eletrônico de sucesso.
Starcraft O mais popular na Coreia do Sul é um jogo de estratégia de guerra em ambiente de ficção científica.
DotA 2(Defense of the Ancients)É um jogo de estratégia de batalhas.
FifaJogo de futebol que já tem Mundial próprio.
MAIOR PREMIAÇÃO DE eSPORTS
Fonte: NewzooMercado de eSPORTSno Mundo
 

Boom com a chegada do LoL ao Brasil
 

O boom dos esportes eletrônicos no Brasil se deu nos cinco anos, com a chegada da Riot, empresa responsável pelo League of Legends, ou LoL para os íntimos. O jogo mais popular do planeta faz parte do gênero de games online com a participação de vários jogadores e envolve um mundo de fantasia, magia, batalhas sangrentas e desenvolvimento de personagens. No mundo, estima-se mais de 100 milhões de gamers, profissionais ou não, e o Brasil está em quarto lugar no número de participantes. Para se ter ideia da grandiosidade dos números, o mundial de LoL teve média de mais de 4 milhões de espectadores por partida.
 

Com o crescimento, as equipes se organizaram e fundaram uma associação, a ABCDE (Associação Brasileira de Clubes de eSports), no ano passado. O país conta com 10 grandes times, como INTZ, Kabum, Pain, e cerca de 10 milhões de jogadores amadores e profissionais. Já há uma divisão brasileira de LoL, que serve de eliminatória para o mundial, e um campeonato organizado pela CBF, o e-Brasileirão, de PES 2017, jogo semelhante ao Fifa, tendo o Santos como primeiro campeão. O clube santista e o Remo são os primeiros brasileiros a ter uma divisão de eSports.
 

GAMERS GANHAM ATÉ R$ 30 MIL NO PAÍS

A audiência brasileira, segundo o estudo da Newzoo, ultrapassa 11 milhões, atrás apenas dos chineses e americanos, respectivamente. Nos últimos anos, além das transmissões em streaming nos sites, algumas TVs fechadas passaram a cobrir alguns campeonatos, como Espn e Sportv, que transmitiu a final do CBLoL, ano passado. E, quanto mais cresce, mais dinheiro para os envolvidos. No Brasil, um pro player ganha, em média, de R$ 3 mil a R$ 6 mil. Porém, os melhores, com mais seguidores nas redes sociais, podem receber até R$ 30 mil por mês.
 

As organizações de eSports funcionam como clubes de futebol, que têm futebol, vôlei, basquete etc... Os clubes de eSports tem várias modalidades e nosso futebol de campo da atualidade é o LoL. Neste jogo, os brasileiros se estabeleceram como os melhores da região Latam (América do Sul e central). No CS, desde 2006, os brasileiros têm figurado entre os melhores do mundo, e já são entre 15 a 20 brasileiros atuando fora do Brasil explicou Carlos Fonseca, presidente da ABCDE e CEO do CNB eSports Club, acrescentando. O mercado está em franco crescimento e ganhando cada vez mais credibilidade no Brasil. Um sinal disso, foi a entrada do Ronaldo como um dos sócios da nossa equipe.
 

O queridinho dos gamers divide espaço com outros jogos populares, como o Counter-Strike: Go Offensive, ou apenas CS:GO, uma nova versão do CS, que fez sucesso no início dos anos 2000 e retornou com força. Trata-se do clássico jogo de tiro, no qual se joga a partir do ponto de vista do atirador. As versões de futebol, como Fifa e PES, ainda estão num nível abaixo de popularidade, mas com públicos fiéis. Outro caso de sucesso, é o DotA2 (Defense of the Ancients), que concedeu a maior premiação da história: US$ 20 milhões (R$ 62 milhões), sendo US$ 8,8 milhões ao campeão mais do que os US$ 8,1 milhões dados ao vencedor da Libertadores, caso venha da fase preliminar.
 

Na Coreia do Sul, que está construindo um estádio apenas para a realização de jogos eletrônicos e já reconhece como esporte olímpico, o StarCraft, na mesma linha do LoL, é o mais jogado. Lá, os jogadores já estão perto do estrelato alcançados pelos craques do futebol ou NBA. Samuel lembra que, na Copa de 2002, sediada pelos sul-coreanos ao lado do Japão, os pro-gamers do principal time de Starcraft do país foram ao vestiário da seleção para motivá-la.
 

O xadrez se assemelha muito com os e-sports, pois envolve outras habilidades mentais. Por isso, não acho absurdo os esportes eletrônicos estarem numa Olimpíada, no futuro sonha alto Samuel.
 

Produção de games no país é incipiente
 

Se o Brasil já tem equipes no topo dos eSports e jogadores disputados no mercado internacional, o país ainda patina na produção interna de games de todos os tipos. São mais de 200 empresas desenvolvedoras de jogos, porém há um gargalo no momento de levá-lo ao público interno. Quem consegue finalizar já olha para o exterior, e os escassos bons profissionais também buscam o aeroporto.
 

É um mercado em expansão, mas é muito difícil acabar um jogo. Há inúmeras feiras no Rio e São Paulo, há um movimento forte aqui, mas a produção interna não chega ao mercado ou não faz sucesso. Isso porque precisa de um investimento inicial alto, algo em torno de R$ 600 mil, e a maioria é de empresas pequenas, feitas entre amigos explica o professor de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe/UFRJ, Geraldo Xexéo.
 

Bruno Lanzarotti, da FireCast, ratifica as afirmações do professor. E acrescenta que ainda há preconceito do público brasileiro.
 

É muito difícil fazer um jogo focado no mercado brasileiro, pois a chance de ter retorno é baixa. A própria mídia da destaque aos jogos internacionais grandes, os chamados AAA. E o brasileiro ainda tem certo preconceito com jogos nacionais, assim como cinema nacional afirma.
 

PREFEITURA CRIA CURSO DE GAME NAS NAVES DO CONHECIMENTO

Há ainda a questão da mão de obra qualificada. Para produzir um game, envolve programação, design, roteiro e trilha sonora. Atualmente, há poucos cursos de qualidade e específicos, como o do Instituto Federal do Rio de Janeiro, que foi homologado recentemente pelo MEC e é considerado como graduação. A procura é grande.
 

E, de olho nessa demanda, a secretaria municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação vai oferecer, a partir do mês que vem, curso de introdução ao game design nas naves do conhecimento, em áreas periféricas da cidade. Para divulgar o projeto, a secretaria, em parceira com a GF Corp, criou a I Copa Nave de Games, que teve mais de dois mil inscritos, a partir dos 10 anos, que disputaram torneios de Mario Kart, PES 2017 e Holodrive (um jogo desenvolvido pela carioca Bit Cake). Os vencedores de cada nave vão fazer a final no Rio Geek e Game e os campeões vão ganhar videogames de última geração.
 

Estive nas naves, e perguntei o que achavam dos cursos de lá. Um menino me disse que achava chato, e que gostava de criar os próprios games. Inclusive, estava dando aulas para outros meninos na nave de Triagem. Me aprofundei no assunto e descobri que é um mercado que gera mais de R$ 90 bilhões no mundo, que já ultrapassou música e cinema. No Brasil, estamos entre os 10 maiores consumidores, mas não estamos na lista de produtores. Esse será o primeiro módulo, e vamos apresentar toda a cadeia produtiva explicou a secretária Clarissa Garotinho.
 

O governo federal também começa a olhar esse mercado, ainda que timidamente. No final do ano passado, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) lançou o primeiro edital para desenvolvimento de jogos eletrônicos, com R$ 10 milhões em investimentos para 24 jogos em diversas plataformas. O dinheiro será para projetos principalmente fora do eixo Rio e São Paulo, que hoje concentram as empresas. O modelo do edital, no entanto, não agradou a todos, por causa das contrapartidas, consideradas exageradas.
 

Rafifa13: fã de Loco Abreu e FalleN

Aos 21 anos, Rafael Salles realizou o sonho de muito jogador de futebol. No início do ano, foi contrado pelo Paris Saint-Germain para fazer parte do time francês... do jogo de videogame Fifa. Carioca, morador do Andaraí, e estudante de Relações Públicas da Uerj, ele garante que não vive apenas na frente do computador. Acompanha séries, lê e até joga futebol, como meia-armador, nas peladas com os amigos. Botafoguense, tem como ídolo o atacante Loco Abreu. Mas vibra mesmo com Gabriel Toledo, o FalleN, brasileiro campeão de CS:GO, da equipe americana SK Gaming, e que já arrecadou mais de R$ 1 milhão em premiações.
 

Qual foi seu primeiro contato com um jogo de videogame?
 

Meu primeiro contato foi com o Super Nintendo, quando devia ter uns 4 ou 5 anos. Lembro que jogava Super Mario e adorava tentar passar aquelas fases, mesmo que na época não entendesse muito bem a mecânica do jogo.
 

Em que momento você percebeu que a diversão poderia ser profissão?
 

O momento em que notei que o jogo poderia me levar a lugares mais altos foi no meu primeiro campeonato profissional, lá em 2011. Naquela época eu não tinha grandes expectativas com o jogo e logo na primeira oportunidade consegui uma quarta colocação nacionalmente, o que me motivou para seguir no cenário.
 

Você faz Relações Públicas na Uerj. Pretende manter a faculdade ou se dedicar a ser um pro-player?
 

Como estudante da UERJ, estamos vivendo em um momento díficil para a educação no Estado do Rio, o que não me dá condição para seguir os meus estudos regularmente. Mas no momento, sim, dedico meu tempo inteira e exclusivamente para a carreira e para a produção de conteúdo de FIFA.
 

Quais são suas principais conquistas no eSports?
 

Minhas principais conquistas são o bicampeonato brasileiro em 2014 e 2015 e o campeonato panamericano disputado em Miami nesse ano.
 

Como foi o contato do PSG com você? E como vai funcionar?
 

Fazia parte do E-Sport Flix e me chamaram por causa dos resultados. Agora sou um jogador profissional do Paris Saint Germain na parte de e-sports e represento o time em competições nacionais e internacionais. Tenho um contrato de 2 anos com a equipe e terei uma bonificação regularmente junto ao clube.
 

Hoje em dia, com os campeonatos, como é a sua preparação?
 

Jogo em campeonatos onlines e presenciais com os melhores jogadores do país. Temos excelentes jogadores dentro do Brasil e prefiro crescer meu nível junto a eles. No momento treino de três a quatro horas por dia.
 

Você considera o que faz como esporte?
 

Sim, com certeza. Em todos os jogos de e-sports há dedicação física e mental semelhante a de outros atletas de esportes ditos "convencionais", então considero que o que fazemos hoje é um esporte regular e com muito potencial de crescimento junto a novas gerações.
 

Como você acompanha o crescimento do Fifa?
 

Consideramos o cenário de FIFA um ou dois degraus atrás de outros e-sports como LoL ou CS:GO, mas as expectativas são enormes para o crescimento da cena, sobretudo pelo apoio da produtora do jogo EA Sports. Em termos de jogadores, temos uma fan base enorme. Afinal, quem não gosta de jogar FIFA com os amigos? O grande desafio é transformar esses jogadores casuais em consumidores de todo o modo competitivo de FIFA, com o objetivo de fidelizar e trazer esse pessoal tanto para as audiências como para participar de campeonatos.
 

Como sua família lidou com suas escolhas?
 

Minha família apoiou toda a minha jornada. Já venho batalhando há bastante tempo, e quando surgiu essa oportunidade sabíamos que eu teria que abraçar isso com todas as forças.
 

O que você faz além de jogar videogame?
 

Como hobby, leio e escuto muitos podcasts, assim como vejo séries e faço esportes, sobretudo futebol, jogo no meio de campo, como um meia armador. Tenho visto 13 Reasons Why, Suits e Homeland. Também gosto bastante de assistir documentários como Zlatan.
 

Acha que a visão do gamer como um nerd está mudando?
 

Com certeza. Com os adventos das novas tecnologias, muito daquela deturpada visão de que o Gamer/Nerd/Geek como alguém sem amigos e que prefere ficar em casa vem se modificando com a quebra desses preconceitos pelo pessoal ignorante nesse sentido.
 

Quem são seus ídolos?
 

Meu ídolo de futebol é o Loco Abreu. No eSports não poderia ser diferente: meu ídolo é Gabriel Toledo do CS:GO.

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